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irmão lúcia


Segunda-feira, 09.01.17

soares

soares.jpg

 os grandes são assim, eles morrem e a gente põe-se em bicos dos pés, a falar de nós a pretexto deles, tentando abocanhar a nossa pequena parte da história. com o Soares nunca me cruzei, embora faça parte do nosso património colectivo, logo do meu. "foi ele que inventou os contratos a prazo", jurava a minha mãe com um esgar reprovador, logo ela que pouco falava de política à época em que eu era um menino de escola. corrijo. lá em casa não se falava de política, nem de sexo - aprendemos tudo por tentativa/erro - e de religião falava-se em registo louvor, porque havia uma oficial e inquestionável, "graças a deus muitas, graças com deus nenhumas", outra máxima da minha mãe, embora julgue que esta não tenha nada a ver com o Soares. a única política que havia lá por casa era a do trabalho, como diz a cantiga do outro, militância na família nunca houve e no máximo pode dizer-se que tanto do lado materno como paterno éramos essencialmente republicanos, no sentido em que os sobressaltos e as vidas de merda eram para todos. o meu pai, manguelas da praça da alegria, só falava de política para expor as iniquidades da ditadura, nomeadamente a obrigatoriedade da licença de isqueiro, que penalizava um profissional do fumo (3 maços de ritz por dia). não sei se gostava do Soares, do bochechas, não fui a tempo de perguntar-lhe. sei que gostava mais dos socialistas do que dos comunistas porque não tragava os revolucionários instantâneos que lhe surgiram à frente dos olhos na empresa de electricidade onde vergava a mola, embora houvesse lá por casa uma edição d'o marxismo-leninismo e o internacionalismo da classe operária. "o fulano, que era o maior engraxador do patrão, só falava em saneá-lo da firma". em 1986, sei que pai e mãe votaram no Soares na segunda volta, sem entusiasmo que transpirasse lá por casa, para não deixarem o país todo nas mãos da direita. para não darem a vitória ao facho, palavras deles. sei que gostavam do zenha e da pintassilgo, a minha mãe ainda hoje a admira, e sei que abominavam a imagem do candidato freitas aos mergulhos na piscina. na noite das eleições fomos para casa do tio fernando, assinante do avante que nunca falava abertamente de política aos miúdos - as tradições de família eram para cumprir - e sei que houve foguetes no ar. quando fomos à bica ao café las vegas em oeiras sei que o meu tio ia todo contente. talvez nos tenha oferecido um gelado, talvez não. era fevereiro, talvez não. eu fiquei feliz por simpatia, já o meu amigo ireneu ficou triste, os pais tinham vindo de angola e ele até tinha autocolantes do freitas que passeava na escola preparatória. o tempo passou, perdi o ireneu de vista e o meu tio, que engoliu o famoso sapo, acabou por morrer em cuba, ironia marxista, porque o destino é assim, troça de nós, cospe-nos na cara. morreu sem que falássemos alguma vez no Soares, depois de me tornar adulto. já o meu pai morreu por cá, cedo, também. tradições de família. somos muito disso. nenhum dos dois viu morrer o Soares, não sei o que diriam hoje. sei que preferiam o Soares ao freitas, apesar dos contratos a prazo. sei que adoravam a liberdade, cada um à sua maneira, e que ensinaram os filhos a gostar dela. sei que o Soares gostava dela, liberdade, e que homens como ele fizeram com que hoje se possa insultá-lo publicamente, chamá-lo de filho da puta para baixo, sem que se sofram consequências nem prisões. não é coisa pouca. chapeau, bochechas.

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por Pedro Vieira às 15:50

Quarta-feira, 09.11.16

state of the art

vitoria trump.jpg

 

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por Pedro Vieira às 23:13

Sábado, 05.11.16

o cortejo, aleluia, aleluia

há muitos anos assisti a uma espécie de feira das vaidades que se tinha tornado tradição na terra da minha mãe, uma espécie de cortejo no qual um grupo de iluminados dominava as atenções, isto enquanto o povo, que eu na minha arrogância de jovem achava demasiado saloio e crente, abria alas e enchia a clique de vitualhas, cantando aleluias, torcendo as mãos em prece e esperança, o chão todo ele pétalas de flores como se fora passadeira vermelha e a clique lá a vinha pisando, fazia-se anunciar com estrondo e antecedência no meio de sinetas e fanfarras, prometendo a salvação mediante uma fé cega, uns dinheiros passados de forma discreta e uns agrados de boca, era muito importante saber receber para podermos contar com os favores de quem sabe, de quem manda, e tudo isto sem que ninguém questionasse o ar desgrenhado e estranhamente informal do prior, coadjuvado por jovens com ar entre o ausente e o escarninho, cheios de si, mas o senhor padre lá saberia, pois se ele era unha com carne com os mais poderosos, com aqueles que podem mudar a vida dos homens com um gesto ou mediante uma atençãozinha, uma nota num envelope, pois o saber deles estava para além do nosso conhecimento e então lá se faziam passar por portadores da Palavra, perante o estupor e a crença de quem sabe que as maiores graças podem vir de fora, isto se nos portarmos todos muito bem.

foi há muitos anos e por isso já não me lembro se o cortejo se chamava compasso da páscoa ou web summit.

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por Pedro Vieira às 22:44

Terça-feira, 18.10.16

um não atende, o outro não aparece.

e se o dylan for o assassino de aguiar da beira?

 
 

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por Pedro Vieira às 21:06

Domingo, 02.10.16

ditado

ao imi e ao cavaco põe deus a mão por baixo.

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por Pedro Vieira às 22:16

Segunda-feira, 05.09.16

preocupações de Sandro

o verão está tão quente que estou sempre à espera de me cruzar na rua com o vasco gonçalves.

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por Pedro Vieira às 19:01

Terça-feira, 23.08.16

ignacio

só hoje dei conta da morte de ignacio padilla, escritor mexicano de quem li apenas um livro, que é tudo. "sombras de sombras", publicado na também já desaparecida gótica, põe a hipótese de adolf eichmann, aquele da banalidade do mal, julgado e condenado em jerusalém para alívio das consciências, ser outro homem. vítima do acaso e das armadilhas da identidade. hoje, ao ler sobre o desaparecimento de ignacio, sacrificado na banalidade de um acidente de automóvel, torço para que tudo não passe de mais um artifício literário e que o verdadeiro padilla esteja em parte incerta, vestido de outro, rindo das funestas notícias.

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por Pedro Vieira às 12:28

Sexta-feira, 08.07.16

a final

as lágrimas já corriam desde o dia 16 de maio, altura em que o porto foi derrotado pelos italianos da juventus em basileia, maldição dos helvécios que andam feitos com o povo do papa desde há muito, toda a gente sabe, e não, não sabia a data de cor, como acontece aos cronistas omniscientes que se lembram de jogos realizados mesmo antes de terem nascido. fui conferir com o doutor google. desse dia recordo as lágrimas, a arbitragem duvidosa, a comemoração do golo do sousa, com os braços frenéticos para cima e para baixo e a bola de cautchú que me ia sendo roubada na rua minutos antes, não fosse a intervenção do fanã, o miúdo mais forte e temido lá da rua, que me protegeu dos larápios, o fanã que era uma espécie de brienne of tarth, só que sem escudeiro. não precisava. salvou-se a bola, fraco consolo. e pouco tempo depois, num dia como tantos outros à época, preenchido por um passeio com a família à periferia, quer dizer, à periferia da periferia, porque então, mais do que agora, o cemitério de benfica não era exactamente o rossio e o metro até acabava em sete-rios, num dia de passeio com o objectivo de ir buscar umas ameixas, ou uns pêssegos, ou outra fruta qualquer à casa de alguém no cacém, "fruta qualquer", "alguém", nestes detalhes a memória é difusa e não há internet que nos salve, mas nos outros, abrasivos, talhados a desilusão, restam poucas dúvidas, nesse dia regressámos a correr para casa à conta do jogo decisivo que acabou com um "não chores, filho, é só futebol", mas não era, aquela meia-final com a frança era uma hipótese de alegria contra os poderosos naquele mundo azedo, com o pai mal-empregado, a mãe reformada antecipadamente, e a consciência dos miúdos, isabel cristina e pedro vasco, a ter de crescer um tudo-nada mais cedo, com o dinheiro contado e o mantra sabido, "se não estudam não vão ser ninguém", sem luxos a não ser as fintas do chalana e a promessa de uma vida melhor, e pelo meio os ouvidos abertos aos chistes lançados ao mário soares que até era mais ou menos apreciado lá em casa, "foi ele que inventou os contratos a prazo", bem mais apreciado do que em casa do meu tio zé de sintra, herança colonial oblige, o meu tio que tinha pendurado na parede um calendário com o retrato do pai da democracia, a quem barrava de bolo em dia de aniversário, "toma lá, bochechas, comeste-nos tudo, toma lá mais um bocadinho", e da primeira metade dos oitentas pouco mais há a assinalar no meu universo, reparem, se ganhássemos ao platini, que tinha alinhado em basileia, podíamos tirar consolo, se se mantiver a reviravolta a expensas do grande jordão podemos ir celebrar para a rua em bando, com o santana, o fernandinho, o otelo, o leila mais o tiago, sem precisarmos da protecção do fanã, sequer, porque esta vitória sobre os favoritos vai saber a pato, a canard, e vai limar arestas e conflitos, e vai acabar com todas as injustiças e roubos e dificuldades, só que a gália não esteve pelos ajustes e deixou-nos de joelhos, culpa de alguém de quem não retive o nome. posso ir ver ao google mas não quero, e culpa do platini, o escroque sportif, que arrumou connosco, com o sonho dos miúdos que, tendo nascido em meados de 70, acabaram por passar a adolescência a ver a banda passar, isto porque portugal não se apurava para nada, continuava na fossa, mesmo com a adesão à CEE e o afastamento do inventor da precariedade e a vinda a rodos de todos os fundos, autoestradas e yuppies, a vida lá em casa a melhorar e portugal encalhado entre o platini e o horror de saltillo, e mais tarde, bom, deixámo-nos linchar novamente pelos bleus, uma e outra vez, e é por isso que eu torci por uma vitória dos franceses no jogo de ontem, por querer ver vingada a infância amachucada, por acreditar estupidamente num dever de reparação, por não ter ficado convencido de que aquilo era só futebol, e tanto tempo depois, contas feitas, os pais tinham razão, graças a eles, ao seu sacrifício e generosidade, temos vidas muito melhores que as suas. vidas que estão a um passo de ficar ainda mais iluminadas, graças à minha mulher e à promessa que ela transporta. falta só emendar o passado, até porque a história já se repetiu em farsa - a mão do abel - e em tragédia - outro penálti exímio do zidane - e vá, há momentos em que basta de marxismo. mais. ontem li que portugal não vence a frança desde 1975, o ano em que eu nasci, e eu, que acredito mais no caos e no arbitrário do que no destino ou na providência, estou convencido de que isto é um sinal, só pode. até porque à beira de entrar nos 41, a quinta década, é altura de arrumar a infância e as lágrimas nos seus lugares. é altura de vingar os trolhas e as concierges. é altura de casar o juízo com a idade.

ps: eu sei que vamos perder o jogo, mas esta ilusão reacendida, com 32 anos de intervalo, essa ninguém ma tira.

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por Pedro Vieira às 15:03

Sexta-feira, 17.06.16

Áustria

Europa, início do século XVIII. Mantendo uma tradição que só foi quebrada pela CEE e derivados, coisa que vai sendo esquecida a pouco e pouco por nacionalistas e distraídos do século XXI, a guerra estalava com força, desta vez a pretexto da sucessão espanhola. Tudo porque Carlos II de Áustria morreu tantã e sem filhos, fruto de gerações amigas da consanguinidade, situação que já aconteceu no seio de muito boas famílias e mais não digo. A sucessão, pois. De um lado estavam os Bourbons e seu campeão Filipe, apoiados pela França e pela Baviera, terra que gerou coisas como o Bayern de Munique e certo e determinado partido nacional-socialista. Do outro estavam os Habsburgos, que para simplificar passarei a chamar de austríacos, aliados aos ingleses, aos holandeses e aos portugueses. Certo? Errado. Mas certo. É que no início os portugueses apoiavam os franceses mas acabaram por virar o bico ao prego, não fossem os ingleses dar cabo das naus carregadas com os oiros do Brasil. Vai daí virámos casaca e eis-nos de braço dado com os austríacos. Muitos mortos depois, a guerra da sucessão lá se resolveu com uns acordos forçados, coisa também muito europeia, e a soldadesca portuguesa suspirou de alívio por já não ter de carregar os arcabuzes. Pelo meio ainda nos adoçaram a boca com o tratado de Methuen, que basicamente facilitava a venda de vinho para a Inglaterra, por troca com tecidos. Muitos. E à conta de os nossos antepassados morrerem de amores por tweed e padrões argyle, iniciámos nessa época uma maravilhosa crise da dívida que até hoje não conseguimos sacudir, mas isso são outros quinhentos. Portanto, excepção feita a um conflito no qual traímos terceiros para alinharmos com os austríacos, nada nos une às gentes do Tirol. É certo que dom Pedro IV também foi casado com a Maria Leopoldina, nascida no palácio Schönbrunn, que é uma espécie de vivenda com demasiadas divisões para limpar, mas esse preferiu ser um imperador do Brasil em vez de reinar no rectângulo, portanto não conta para o totobola. Resumindo, neste momento decisivo, e numa altura em que as naus já nem sequer navegam, não há razão nenhuma para não enfiarmos duas ou três ou doze batatas na baliza austríaca, sem qualquer tipo de remorso. Convenhamos, precisamos de elevar a moral, depois daquele empate com travo a bacalhau, e não esqueçam, por favor, que os austríacos são um povo manhoso que tentou convencer toda a gente de que o Beethoven era austríaco e que o Adolfo era alemão. Merecem que lhes viremos a casaca, mesmo em fora-de-jogo.

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por Pedro Vieira às 20:41

Sexta-feira, 10.06.16

Valentina

vozes.jpg

"Li muitos livros, vivo entre os livros, mas eles não explicam nada". se tivesse de escolher uma frase para resumir esta obra-prima, recorria à bibliotecária Valentina, viúva, mãe, que nos lembra o facto de não haver papel e tinta que expliquem o absurdo da existência. resta o consolo de continuarmos a busca, página atrás de página. até que.

 

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por Pedro Vieira às 14:16


pagamento de promessas para

irmaolucia[arroba]gmail.com

teologia de pacotilha (descontinuado)

professor josé cid

o meu outro salão do reino (descontinuado)

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