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irmão lúcia


Terça-feira, 23.08.16

ignacio

só hoje dei conta da morte de ignacio padilla, escritor mexicano de quem li apenas um livro, que é tudo. "sombras de sombras", publicado na também já desaparecida gótica, põe a hipótese de adolf eichmann, aquele da banalidade do mal, julgado e condenado em jerusalém para alívio das consciências, ser outro homem. vítima do acaso e das armadilhas da identidade. hoje, ao ler sobre o desaparecimento de ignacio, sacrificado na banalidade de um acidente de automóvel, torço para que tudo não passe de mais um artifício literário e que o verdadeiro padilla esteja em parte incerta, vestido de outro, rindo das funestas notícias.

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por Pedro Vieira às 12:28

Sexta-feira, 08.07.16

a final

as lágrimas já corriam desde o dia 16 de maio, altura em que o porto foi derrotado pelos italianos da juventus em basileia, maldição dos helvécios que andam feitos com o povo do papa desde há muito, toda a gente sabe, e não, não sabia a data de cor, como acontece aos cronistas omniscientes que se lembram de jogos realizados mesmo antes de terem nascido. fui conferir com o doutor google. desse dia recordo as lágrimas, a arbitragem duvidosa, a comemoração do golo do sousa, com os braços frenéticos para cima e para baixo e a bola de cautchú que me ia sendo roubada na rua minutos antes, não fosse a intervenção do fanã, o miúdo mais forte e temido lá da rua, que me protegeu dos larápios, o fanã que era uma espécie de brienne of tarth, só que sem escudeiro. não precisava. salvou-se a bola, fraco consolo. e pouco tempo depois, num dia como tantos outros à época, preenchido por um passeio com a família à periferia, quer dizer, à periferia da periferia, porque então, mais do que agora, o cemitério de benfica não era exactamente o rossio e o metro até acabava em sete-rios, num dia de passeio com o objectivo de ir buscar umas ameixas, ou uns pêssegos, ou outra fruta qualquer à casa de alguém no cacém, "fruta qualquer", "alguém", nestes detalhes a memória é difusa e não há internet que nos salve, mas nos outros, abrasivos, talhados a desilusão, restam poucas dúvidas, nesse dia regressámos a correr para casa à conta do jogo decisivo que acabou com um "não chores, filho, é só futebol", mas não era, aquela meia-final com a frança era uma hipótese de alegria contra os poderosos naquele mundo azedo, com o pai mal-empregado, a mãe reformada antecipadamente, e a consciência dos miúdos, isabel cristina e pedro vasco, a ter de crescer um tudo-nada mais cedo, com o dinheiro contado e o mantra sabido, "se não estudam não vão ser ninguém", sem luxos a não ser as fintas do chalana e a promessa de uma vida melhor, e pelo meio os ouvidos abertos aos chistes lançados ao mário soares que até era mais ou menos apreciado lá em casa, "foi ele que inventou os contratos a prazo", bem mais apreciado do que em casa do meu tio zé de sintra, herança colonial oblige, o meu tio que tinha pendurado na parede um calendário com o retrato do pai da democracia, a quem barrava de bolo em dia de aniversário, "toma lá, bochechas, comeste-nos tudo, toma lá mais um bocadinho", e da primeira metade dos oitentas pouco mais há a assinalar no meu universo, reparem, se ganhássemos ao platini, que tinha alinhado em basileia, podíamos tirar consolo, se se mantiver a reviravolta a expensas do grande jordão podemos ir celebrar para a rua em bando, com o santana, o fernandinho, o otelo, o leila mais o tiago, sem precisarmos da protecção do fanã, sequer, porque esta vitória sobre os favoritos vai saber a pato, a canard, e vai limar arestas e conflitos, e vai acabar com todas as injustiças e roubos e dificuldades, só que a gália não esteve pelos ajustes e deixou-nos de joelhos, culpa de alguém de quem não retive o nome. posso ir ver ao google mas não quero, e culpa do platini, o escroque sportif, que arrumou connosco, com o sonho dos miúdos que, tendo nascido em meados de 70, acabaram por passar a adolescência a ver a banda passar, isto porque portugal não se apurava para nada, continuava na fossa, mesmo com a adesão à CEE e o afastamento do inventor da precariedade e a vinda a rodos de todos os fundos, autoestradas e yuppies, a vida lá em casa a melhorar e portugal encalhado entre o platini e o horror de saltillo, e mais tarde, bom, deixámo-nos linchar novamente pelos bleus, uma e outra vez, e é por isso que eu torci por uma vitória dos franceses no jogo de ontem, por querer ver vingada a infância amachucada, por acreditar estupidamente num dever de reparação, por não ter ficado convencido de que aquilo era só futebol, e tanto tempo depois, contas feitas, os pais tinham razão, graças a eles, ao seu sacrifício e generosidade, temos vidas muito melhores que as suas. vidas que estão a um passo de ficar ainda mais iluminadas, graças à minha mulher e à promessa que ela transporta. falta só emendar o passado, até porque a história já se repetiu em farsa - a mão do abel - e em tragédia - outro penálti exímio do zidane - e vá, há momentos em que basta de marxismo. mais. ontem li que portugal não vence a frança desde 1975, o ano em que eu nasci, e eu, que acredito mais no caos e no arbitrário do que no destino ou na providência, estou convencido de que isto é um sinal, só pode. até porque à beira de entrar nos 41, a quinta década, é altura de arrumar a infância e as lágrimas nos seus lugares. é altura de vingar os trolhas e as concierges. é altura de casar o juízo com a idade.

ps: eu sei que vamos perder o jogo, mas esta ilusão reacendida, com 32 anos de intervalo, essa ninguém ma tira.

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por Pedro Vieira às 15:03

Sexta-feira, 17.06.16

Áustria

Europa, início do século XVIII. Mantendo uma tradição que só foi quebrada pela CEE e derivados, coisa que vai sendo esquecida a pouco e pouco por nacionalistas e distraídos do século XXI, a guerra estalava com força, desta vez a pretexto da sucessão espanhola. Tudo porque Carlos II de Áustria morreu tantã e sem filhos, fruto de gerações amigas da consanguinidade, situação que já aconteceu no seio de muito boas famílias e mais não digo. A sucessão, pois. De um lado estavam os Bourbons e seu campeão Filipe, apoiados pela França e pela Baviera, terra que gerou coisas como o Bayern de Munique e certo e determinado partido nacional-socialista. Do outro estavam os Habsburgos, que para simplificar passarei a chamar de austríacos, aliados aos ingleses, aos holandeses e aos portugueses. Certo? Errado. Mas certo. É que no início os portugueses apoiavam os franceses mas acabaram por virar o bico ao prego, não fossem os ingleses dar cabo das naus carregadas com os oiros do Brasil. Vai daí virámos casaca e eis-nos de braço dado com os austríacos. Muitos mortos depois, a guerra da sucessão lá se resolveu com uns acordos forçados, coisa também muito europeia, e a soldadesca portuguesa suspirou de alívio por já não ter de carregar os arcabuzes. Pelo meio ainda nos adoçaram a boca com o tratado de Methuen, que basicamente facilitava a venda de vinho para a Inglaterra, por troca com tecidos. Muitos. E à conta de os nossos antepassados morrerem de amores por tweed e padrões argyle, iniciámos nessa época uma maravilhosa crise da dívida que até hoje não conseguimos sacudir, mas isso são outros quinhentos. Portanto, excepção feita a um conflito no qual traímos terceiros para alinharmos com os austríacos, nada nos une às gentes do Tirol. É certo que dom Pedro IV também foi casado com a Maria Leopoldina, nascida no palácio Schönbrunn, que é uma espécie de vivenda com demasiadas divisões para limpar, mas esse preferiu ser um imperador do Brasil em vez de reinar no rectângulo, portanto não conta para o totobola. Resumindo, neste momento decisivo, e numa altura em que as naus já nem sequer navegam, não há razão nenhuma para não enfiarmos duas ou três ou doze batatas na baliza austríaca, sem qualquer tipo de remorso. Convenhamos, precisamos de elevar a moral, depois daquele empate com travo a bacalhau, e não esqueçam, por favor, que os austríacos são um povo manhoso que tentou convencer toda a gente de que o Beethoven era austríaco e que o Adolfo era alemão. Merecem que lhes viremos a casaca, mesmo em fora-de-jogo.

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por Pedro Vieira às 20:41

Sexta-feira, 10.06.16

Valentina

vozes.jpg

"Li muitos livros, vivo entre os livros, mas eles não explicam nada". se tivesse de escolher uma frase para resumir esta obra-prima, recorria à bibliotecária Valentina, viúva, mãe, que nos lembra o facto de não haver papel e tinta que expliquem o absurdo da existência. resta o consolo de continuarmos a busca, página atrás de página. até que.

 

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por Pedro Vieira às 14:16

Terça-feira, 07.06.16

dez anos de aparições

embora em serviços mínimos, esta azinheira, o Sandro, o Ruca, a Carina, esta casa de meus vícios acaba de completar dez anos. dez. estamos crescidos, mais ou menos.

a suivre.

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por Pedro Vieira às 12:16

Sexta-feira, 27.05.16

apoiado na minha liberdade de escolha, fiz uma lista de compras para a feira do livro.

onde é que assino o contrato de associação?

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por Pedro Vieira às 16:48

Quarta-feira, 25.05.16

a feira começa amanhã

a minha relação com a feira é de longa data mas não por razões bibliográficas, lembro-me, sim, de pôr lá os pés em visita de estudo da escola primária, numa daquelas oportunidades de desarvorar de benfica no autocarro 46, não te esqueças de trazer dois módulos de autocarro, um para ir, outro para voltar, despesa extra lá em casa naquela semana mas adiante, de neo-realismo está o inferno do bom gosto cheio, e nessa visita a avó da olga apontava para o marquês e dizia, este homem não deixou que as freiras e os padres torturassem as pessoas, mandou prendê-los a todos, e eu mal sabia o que isso queria dizer, torturar, mas depreendi que era coisa feia e que o de pombal era gente decente para azar dos távoras, e à feira só regressei anos mais tarde, quando já ganhava o meu - ao marquês fui voltando, não por anticlericalismo, o que para mim seria a melhor das razões, mas porque é quase impossível viver em lisboa sem passar por ele - regressei disposto a desbastar uns escudos, depois uns euros, entre as bancas de saldos e novidades, a banca da dom quixote com a colecção de capa branca a preços módicos, a da teorema, com o editor para trás e para a frente, fumando bravatas e a quem muito mais tarde tive o prazer de ser apresentado, obrigado pela educação sentimental, carlos da veiga ferreira, a terorema, então, onde a preços não eram tão bons mas por lá pairava o anzol do tom sharpe, que me agarrava pela boca e riso, e o do calvino, e eu feito visconde com a carteira cortada ao meio, mais as bancas da caminho onde o saramago se encontrava militantemente sentado ao lado do enorme zeferino coelho, o saramago que uma vez assinou um livro da gestão para totós à minha frente porque o dono do livro já não tinha mealheiro para comprar um memorial do convento ou similar e o projecto de nobel não o deixou ir embora sem um rabisco para oferecer ao filho, e ele queria tanto um autógrafo seu, ai, olha a chinela a descambar para o neo-realismo, e com os anos a feira foi mudando, e eu também, fui mudando de profissão, tornei-me livreiro, e nessa condição conheci um personagem que fica aqui guardado, o senhor fernando, vendedor da presença com rosto seráfico e sorriso difícil, o senhor fernando, de humor fino, e de quem se dizia ser detentor de um cinturão escuro em karaté, o senhor fernando que castigava os ladrões da feira, que sempre os haverá, com um mergulho de cabeça para baixo nos caixotes do lixo do parque, o que eu gostava das histórias do senhor fernando e da presença, não por causa do dostoiévski, que não aprecio, ai, a chinela a fugir para a blasfémia, mas eu sou mesmo assim, tenho problemas com os russos, mas também quem não os tem que atire a primeira pedra, eu confesso que ganhei estima pela presença porque foi a primeira consignação que escolhi sozinho, como escrever uma tese, check, a era dos extremos, check, pude escolher e ainda era soldado raso dos livros, obrigado pela confiança camarada luís, e quanto à feira, assunto principal deste discorrer, cheguei até a trabalhar nela nos pavilhões de madeira forte, pesada, que ameaçavam decepar os incautos e os leitores mais distraídos, e depois passei para estes mais ligeiros, mais desáine, mas comportava-me da mesma forma, torrava o dinheiro das horas extraordinárias nas bancas de livros, antígona, relógio, cavalo, quetzal, a antiga, do extraordinário rogério petinga, e a nova, e depois a tinta da china e a espaços a orfeu, e os alfarrabistas, mais o dinheiro espatifado nos quiosques do café e nas farturas scalabitano e otário, à vez, porque nessa matéria não sou esquisito, não é como com os eslavos, e por lá cheguei até a distribuir meia-dúzia de autógrafos num ou noutro ano em que amavelmente me convidaram para tal, portanto, a feira é um gozo, um gosto, mesmo quando chove, e chove todos os anos, e é preciso subir, e quando o sol é inclemente e quando nos damos conta que a voz da cabine de som não muda há anos. gosto muito de ti, feira. para saber quanto, deixa-me só ir consultar o saldo.

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por Pedro Vieira às 22:20

Terça-feira, 10.05.16

no tempo da morte das ideologias, portugal mostra que está na vanguarda da ciência política.

à conta das escolas privadas descobrimos o liberal-chupismo.

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por Pedro Vieira às 22:48

Sexta-feira, 15.04.16

militares que se sentem melindrados com um ministro da defesa que ataca a discriminação.

que paneleiros.

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por Pedro Vieira às 12:23

Terça-feira, 12.04.16

Sandro considera que graças à visita do costa, afinal somos a grécia.

resta saber se o ministério público sempre tem cicuta para enfiar pela goela de sócrates ou se nos ficamos pelo leitão.

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por Pedro Vieira às 10:56


pagamento de promessas para

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teologia de pacotilha (descontinuado)

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o meu outro salão do reino (descontinuado)

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