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irmão lúcia



Terça-feira, 22.09.09

Paris é, essencialmente, uma cidade onde as pessoas posam em frente a coisas

depois deste post ainda darei um ou outro lamiré sobre a viagem a paris da frança mas o essencial ficará plasmado aqui, nesta espécie de síntese que demonstra que o importante é posar, provar que se esteve lá, o que não se vê não existe, já dizia o filósofo, ou o dias loureiro, ou outra pessoa qualquer assim do género, do métier, e como tal o roteiro faz-se pelos nossos olhos postos nos olhos dos outros postos no, na modelo de ocasião. ora vejamos:



é truque baixo fazer uso dos turistas japoneses - há-os aos montes e em poses de toda a maneira e feitio - mas dificilmente será possível encontrar momento mais iconográfico do que um mocetão da terra do sol nascente a enquadrar uma compatriota com o arco do triunfo em fundo, aquele monumento que encabeça a gigantesca avenida dos champs elisées, uma espécie de avenida da liberdade mas em grande, também com obelisco ao fundo, se bem que o nosso não foi oferecido pelo egipto mas sim erigido em memória dos Restauradores da independência, que acabaram com o domínio dos filipes sobre a coroa portuguesa. Recentemente manuela ferreira leite terá negado qualquer envolvimento nas defenestrações ocorridas em 1640. Eu duvido, basta ouvir-lhe as declarações recentes e espreitar-lhe a certidão de nascimento.



A meio caminho dos ditos Champs passa-se pelo enquadramento do Hôtel National des Invalides, onde aqui e além também se posa. Curioso que no momento em apreço, lá ao fundo, mesmo em frente ao monumento, uma manada de jovens franceses jogava ao râguebi, aquele desporto que aqui há um par de anos fez sair da toca uma maré de admiradores em portugal, afinal milhões de portugueses até já o tinham jogado quando pequenos, a chuva de vídeos do youtube que se plantaram por esses blogues afora, sobretudo aquele com um barbudo francês em corrida desenfreada, mas entretanto a brincadeira do tomaz morais arrefeceu, saiu dos ecrãs e o regozijo foi-se, mas dizia, a manada lá do fundo jogava sem compromissos mas com a rijeza à mostra, o que tornava premonitória uma catástrofe abençoada por um local - Les Invalides - cujo nome diz tudo.



De destacar que o posador profissional não está preso apenas aos monumentos, a griffe de uma ou outra loja também é apetecível, olha eu tão lindo à beira de umas pontas embebidas em tinta permanente, para mais tarde recordar, segundos depois de a esposa, agora fotógrafa, ter encostado as omoplatas à fachada da Cartier.



Mas gostoso, gostoso, é dar o rabo às Tulherias e os peitos às esculturas defronte do gargantuesco Louvre, gostos não se discutem, poses muito menos,



há inclusive quem queira ombrear com a estatuária clássica mesmo que para isso se recorra aos favores de uma criança contrariada e a uma saia que qualquer social-democrata à portuguesa não desdenharia, aliás, dizem as más línguas que se o psd colocasse nas listas uma ou outra escultura de mármore pelo menos essa não andaria a brincar às malas como o Preto, retinto de suspeição e irrequieto como um irredutível gaulês;



já no que toca a best-sellers da pose os nossos irmãos de osaka, kyoto ou tóquio levam sempre a palma, veja-se o clássico "humano com mona em fundo", eu por mim escrevia uma sequela de certo e determinado campeão de vendas, agora intitulada O Código Hokusai, ou coisa que o valha.





Já no período da noite há quem pose em ademanes de toureiro, olé pirâmide, olé miterrand, ou mesmo em grupo, em família, com a torre em fundo, torre essa que se vê de todo o lado, parece o ego do Jorge Jesus mas com menos metal na voz.



Naturalmente há outros locais onde o posa-fotografa-troca-a-máquina-de-mãos tem ascendente, como por exemplo as cercanias de Notre Dame, minadinhas de amigos do alheio, nomeadamente carteiras, aliás, ainda suspeitei que este marmanjo que vos posa pudesse estar a gamar a mala à própria mulher, ele há gente capaz de tudo, deve ser da massa dos crepes.



No Sacré Coeur também se faz figura, também se posa, sobretudo se se sobreviver ao cheiro a urina do pigalle e às bancas de jogo da vermelhinha, escondida sucessivamente por mãos mânfias e sabidas. No caso em apreço há uma inovação vinda de Leste, a pose em movimento, uma espécie de fabuleux destin d'amelie en passant, desafiador, provocatório,





a milhas da pose vaqueira escolhida para os portões de Versailles. Versailles, o fausto, a opulência, o estupor, espanta-me até que a Maria Antonieta não tenha dito "se não têm pão, comam éclairs forrados de chantilly e enfeitados de fraises fraiches acompanhados por um confitado de marrons glacés", Versailles, local onde aliás podemos assistir a belíssimas mise en scènes da pose, com direito a trabalho apurado de guarda-roupa, como podemos comprovar na foto acima.



Já nos Jardins du Luxembourg impera a força do colectivo, Jerónimo põe os olhos nisto, o sentido de estado, a disciplina coreana, num cenário de grande categoria,



em oposição total a quem escolhe bonecada feita a spray na fachada da Fundação Cartier para a arte contemporânea como pano de fundo para um best of das vacanças na cidade-luz,



optassem antes pelas cercanias da ponte Alexandre III, ilustrada por esta fotografia que testemunha a proliferação desembestada de fotógrafos e poseurs assim que se abre a porta de um qualquer autocarro de turismo. Lá ao fundo topa-se o Grand Palais, vizinho da estátua do general De Gaulle, sendo que do outro lado da rua mora o Petit Palais, ladeado por uma estátua do Churchill, portanto, grande é o nosso narigudo, o nosso exilado, tu ó bife gordo, lá porque desembarcaste uns madraços nas praias da Normandia não penses que te amamos ou qualquer merda assim, põe-te no teu lugar, não é necessário ser graduado em semiótica para tirar um 2 + 2 desta situação, que aliás me afasta do tema principal, a pose, praticada a uma escala abissal em paris;



diria até que o cúmulo da perversão é testemunhar a participação da minha toniciganita nesta feira de vaidades aliadas ao pixel e ao zoom digital, aqui podemos ver como ela rompe o compromisso observador/observado, participando na encenação de uma família de estranhos. em pose. com um palais por trás. Paris, no fundo, é isto, mais croissant, menos croissant.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Pedro Vieira às 20:27


8 comentários

De fallorca a 22.09.2009 às 23:40

Delicioso, pá!

De luis a 23.09.2009 às 00:10

"Chique a valer!..."

De vien ici Manel a 23.09.2009 às 02:56

apesar de fazeres uma reportagem sobre uma cidade que quase metade dos portugueses conhecem melhor que a capital do seu prório país, não posso deixar de te dar os parabéns pelo texto e por te teres safado a levar um pêro nas ventas por teres andado a fotografar desconhecidos sem autorização.
olha comigo aterravas.
vá, começa mas é com a saga do Ruca porque nos dias de hoje quem tem guito para passar quinze dias em Paris não se pode andar para aí a queixar-se que o mundo do livro está em crise.
está em crise mas é o caralho, esse é que está em crise.
e o Fernando Lima.

De Tobias a 23.09.2009 às 16:09

mas afinal quem é o caralho do fallorca? passa a puta da vida a mandar postas de pescada, mas nao se identifica. Será que é virtual? vive no éter?

De Abssinto a 23.09.2009 às 17:41

Original:) podia dar numa série de fotografias para exibir na fábrica dos tubos que é o Centro Georges Pompidou.

De fallorca a 23.09.2009 às 18:14

Tobias, o caralho é meu, para uso próprio; quanto ao fallorca, jorge de nome e apelido que te intriga, sou eu. Não vivo no éter nem o snifo, mas trabalhei nele em tempos. Vai ao google ou ao arquivo de identificação

De Menina Limão a 24.09.2009 às 19:14

que posta boa e cómica, mano. vai já para os meus favoritos mentais.

De Cláudia a 03.10.2009 às 21:01

Toniciganita sempre pronta a ajudar as minorias ... deformação profissional!!

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