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irmão lúcia



Sexta-feira, 08.07.16

a final

as lágrimas já corriam desde o dia 16 de maio, altura em que o porto foi derrotado pelos italianos da juventus em basileia, maldição dos helvécios que andam feitos com o povo do papa desde há muito, toda a gente sabe, e não, não sabia a data de cor, como acontece aos cronistas omniscientes que se lembram de jogos realizados mesmo antes de terem nascido. fui conferir com o doutor google. desse dia recordo as lágrimas, a arbitragem duvidosa, a comemoração do golo do sousa, com os braços frenéticos para cima e para baixo e a bola de cautchú que me ia sendo roubada na rua minutos antes, não fosse a intervenção do fanã, o miúdo mais forte e temido lá da rua, que me protegeu dos larápios, o fanã que era uma espécie de brienne of tarth, só que sem escudeiro. não precisava. salvou-se a bola, fraco consolo. e pouco tempo depois, num dia como tantos outros à época, preenchido por um passeio com a família à periferia, quer dizer, à periferia da periferia, porque então, mais do que agora, o cemitério de benfica não era exactamente o rossio e o metro até acabava em sete-rios, num dia de passeio com o objectivo de ir buscar umas ameixas, ou uns pêssegos, ou outra fruta qualquer à casa de alguém no cacém, "fruta qualquer", "alguém", nestes detalhes a memória é difusa e não há internet que nos salve, mas nos outros, abrasivos, talhados a desilusão, restam poucas dúvidas, nesse dia regressámos a correr para casa à conta do jogo decisivo que acabou com um "não chores, filho, é só futebol", mas não era, aquela meia-final com a frança era uma hipótese de alegria contra os poderosos naquele mundo azedo, com o pai mal-empregado, a mãe reformada antecipadamente, e a consciência dos miúdos, isabel cristina e pedro vasco, a ter de crescer um tudo-nada mais cedo, com o dinheiro contado e o mantra sabido, "se não estudam não vão ser ninguém", sem luxos a não ser as fintas do chalana e a promessa de uma vida melhor, e pelo meio os ouvidos abertos aos chistes lançados ao mário soares que até era mais ou menos apreciado lá em casa, "foi ele que inventou os contratos a prazo", bem mais apreciado do que em casa do meu tio zé de sintra, herança colonial oblige, o meu tio que tinha pendurado na parede um calendário com o retrato do pai da democracia, a quem barrava de bolo em dia de aniversário, "toma lá, bochechas, comeste-nos tudo, toma lá mais um bocadinho", e da primeira metade dos oitentas pouco mais há a assinalar no meu universo, reparem, se ganhássemos ao platini, que tinha alinhado em basileia, podíamos tirar consolo, se se mantiver a reviravolta a expensas do grande jordão podemos ir celebrar para a rua em bando, com o santana, o fernandinho, o otelo, o leila mais o tiago, sem precisarmos da protecção do fanã, sequer, porque esta vitória sobre os favoritos vai saber a pato, a canard, e vai limar arestas e conflitos, e vai acabar com todas as injustiças e roubos e dificuldades, só que a gália não esteve pelos ajustes e deixou-nos de joelhos, culpa de alguém de quem não retive o nome. posso ir ver ao google mas não quero, e culpa do platini, o escroque sportif, que arrumou connosco, com o sonho dos miúdos que, tendo nascido em meados de 70, acabaram por passar a adolescência a ver a banda passar, isto porque portugal não se apurava para nada, continuava na fossa, mesmo com a adesão à CEE e o afastamento do inventor da precariedade e a vinda a rodos de todos os fundos, autoestradas e yuppies, a vida lá em casa a melhorar e portugal encalhado entre o platini e o horror de saltillo, e mais tarde, bom, deixámo-nos linchar novamente pelos bleus, uma e outra vez, e é por isso que eu torci por uma vitória dos franceses no jogo de ontem, por querer ver vingada a infância amachucada, por acreditar estupidamente num dever de reparação, por não ter ficado convencido de que aquilo era só futebol, e tanto tempo depois, contas feitas, os pais tinham razão, graças a eles, ao seu sacrifício e generosidade, temos vidas muito melhores que as suas. vidas que estão a um passo de ficar ainda mais iluminadas, graças à minha mulher e à promessa que ela transporta. falta só emendar o passado, até porque a história já se repetiu em farsa - a mão do abel - e em tragédia - outro penálti exímio do zidane - e vá, há momentos em que basta de marxismo. mais. ontem li que portugal não vence a frança desde 1975, o ano em que eu nasci, e eu, que acredito mais no caos e no arbitrário do que no destino ou na providência, estou convencido de que isto é um sinal, só pode. até porque à beira de entrar nos 41, a quinta década, é altura de arrumar a infância e as lágrimas nos seus lugares. é altura de vingar os trolhas e as concierges. é altura de casar o juízo com a idade.

ps: eu sei que vamos perder o jogo, mas esta ilusão reacendida, com 32 anos de intervalo, essa ninguém ma tira.

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por Pedro Vieira às 15:03


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