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irmão lúcia



Segunda-feira, 27.06.11

festival silêncio: writing mirrors, tomo 1

vou fazer aqui no barraco o rescaldo da minha participação na iniciativa writing mirrors do recém-encerrado festival silêncio, foram 3 leituras no music box, acompanhadas de 3 ilustrações projectadas, subida ao palco, sem orelha, sem rabo, sem volta à praça, sem saída em ombros. é o que temos.

 

 

 

 

 

O primeiro milho é para os pardais, o segundo, o terceiro, os que tiver para dar serão para os meus únicos amigos, os pombos, que a canalha do bairro afasta ao pontapé.

“ratos com asas, dona São”

uma merda, são a minha única e fiel companhia, depois de todos me terem fechado a porta na cara. Depois de todos terem escolhido pôr na maçaneta o aviso “do not disturb”, não incomodar, que os velhos como eu só servem para isso mesmo, para maçar, para causar mossa na vida luminosa imaginada pelos mais novos segundo a escola da linha clara. O Tintim, pois, a quem não faltavam amigos e até uma cadela; pois eu cá tenho os pombos, a passarada, como lhes chama a Arlete que passa as manhãs com o marido sentada na cadeira da esplanada, “no feriado beba leite perfumado”, diz o cartaz que lá penduraram a armar à rima de santo antoninho casamenteiro e só a mim ninguém me pega. Também se era para ficar servida como a Arlete, valha-me deus, arre belzebu, a Arlete, de braço dado com um marido que pinta o cabelo, como se alguém acreditasse que a cabeça de um velho pode parecer-se com uma asa de corvo

“ratos com asas, dona São”

os pombos, não os corvos, que dão algum charme a qualquer história de algibeira mesmo que vazia à boleia na crise. E fumam, ambos, a Arlete e o panhonha que ela traz de braço dado, bairro acima, bairro abaixo, a dar corda aos sapatos, a chiar as solas na poeira que quase cobre o barbudo que dorme há meses no mesmo banco de jardim. E logo num jardim de gabarito, com árvores velhas como tartarugas, onde o tempo não passa, muito menos a fome e a sede

“viste? tinha um brinco no nariz”

comenta o elemento macho do casal de hipsters acabadinhos de estacionar o jipe à sombra do quiosque da moda. E parte da beleza da ficção passa por aqui, posso ser uma velha que diz hipsters e ninguém nota, ou melhor, ninguém julga, mesmo que palavras destas provoquem estranheza. Afinal vivemos na época dos unanimismos e das troikas, já não se discute, uma benesse. Hipsters só porque eu quero, só porque o diseur está para aí virado, quem sabe sequer se hipsters está mesmo grafado neste texto, se não foi recurso de última hora para classificar gente com as roupas, os cabelos, os telemóveis certos “viste? Tinha um brinco no nariz”

o sem-abrigo das barbas, entenda-se, que com tal atrevimento e capital de estranheza arrisca-se a provocar mais tufões do que uma borboleta que se farte de bater as asas, como descobriu aquele cientista que morreu há um par de anos. É por isso que eu prefiro as dos pombos

“ratos com asas, dona São”

pois, e a minha necessidade de partilhar, mesmo que milho, a minha necessidade de ter com quem estar, com quem falar antes que me atirem as últimas pazadas de terra para cima? A primeira terra é para os pardais, e o resto?

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por Pedro Vieira às 17:09



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