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irmão lúcia



Terça-feira, 28.06.11

festival silêncio: writing mirrors, tomo 2

rabiscos vieira

 

No dia em que me apaixonei pelo meu perfil do facebook ganhei forças. Acabou-se o tempo do badocha, do caixa d’óculos, do peida gadocha, das borbulhas e das paródias, e da pila pouco maior do que uma minhoca mostrada à força aos basbaques do recreio maldito em que me mergulharam. Escola C + S Pedro de Santarém. No dia em que me apaixonei pelo meu perfil do facebook pensei que a Mónica podia ter sido minha se eu à época tivesse onde pôr likes sem parecer idiota, sem ter de dizer “gosto” com a minha boca, os meus dentes versão esmalte estalado todos à vista. E ainda para mais gulosos, descarados, de uma forma que as miúdas não gostam, a não ser que sejamos o george michael da escola. Coisas de época. A não ser que sejamos o justin bieber da escola, e bom, consegui dizer isto sem me rir com os tais dentes à mostra. O esmalte que se foda.

No dia em que me apaixonei pelo meu perfil do facebook percebi que posso rir sem dar parte de fraco, a partir da sombra, enquanto construo o outro Diogo a partir das premissas mais recomendáveis do universo, sem precipitações. Os telediscos certos, o “total eclipse from the heart” para mostrar que podemos e sabemos ser retro-kitsch. O “sabotage” para garantirmos que sabemos quem é o spike jonze. O “all is full of love” para mostrarmos que somos sensíveis, que não andamos na rede só à espreita de páginas com duplas penetrações e cumshots, quer dizer, pelo menos não sempre. Para mostrarmos que sabemos quem é o Chris Cunningham, que é uma espécie de Spike Jonze mas ainda mais cool porque menos famoso. Olha para mim tão melómano, olha para mim tão fotógrafo, com álbuns de fotos rigorosamente escolhidas e sacadas a partir dos ângulos mais favoráveis. Isto depois de horas de estudo na tentativa de fazer com que o brilhantismo pareça casual. Câjual. Like. Ainda por cima com a ajuda das aplicações descarregadas da internet para o telefone que nos tornam a todos na melhor Nan Goldin de pacote. Like. Acabou-se a época do Boris Vian e da morte aos feios, se continuo a ter a beleza e o garbo de um texugo não tem problema, faço-me fotografar em contraluz. Ou mostro só um olho, essa parte do corpo que faz sempre boa figura, espelho da alma, o que dizem os seus olhos, paixão do Daniel Oliveira, esse, não o outro. Ou ponho no lugar da fotografia um poster do Jacques Tati, et pour cause. Também podemos compor com cuidado, ao estilo tipógrafo que trabalha com chumbos, as informações acerca de filmes, livros, séries, discos, destinos de férias favoritos. E escolher bonitas causas para defender, contra a brutalidade sobre animais, a favor da adopção à distância de tibetanos pobrezinhos, contra a discriminação racial, social, sexual, de género, número, substantivo e predicado, a favor da protecção dos meninos que disputam pedaços de pão com galinhas mais atrevidas. Como a Ana, mais atrevida. A revista, entenda-se. Revistas, jornais. Reminiscências do tempo do papel, o papel, a importância do retro, estão recordados? Os anos 80. Like. Os desenhos animados do Tom Sawyer. Like. O Khadafi, que já dura desde antes disso. Buuuu. No dia em que me apaixonei pelo meu perfil do facebook descobri que posso ser interessante, misterioso, desejável, só por emitir sinais com a ajuda da rede e da persona que sou hoje. Ouviste Mónica? Viste Mónica? Leste Mónica? Queres teclar Mónica? Esquece os meus dentes, o meu acne, a minha gola suada da camisa, o meu jeito trôpego para dizer gosto. Like. Eu agora adoro Tarantino. E Arcade Fire. No dia em que me apaixonei pelo meu perfil do facebook não me dei conta que fiquei apriosinado como Narciso, à procura do melhor dos meus reflexos. Percebes, Mónica, Narciso que também foi contado por Ovídio. Sabes o charme que tenho quando cito os clássicos imediatamente depois de ter consultado a Wikipedia? Mónica? Avisas-me se algum dia eu me esquecer de pagar a internet? Mónica?

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por Pedro Vieira às 11:05


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