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irmão lúcia



Quarta-feira, 29.06.11

festival silêncio: writing mirrors, tomo 3

 

rabiscos vieira

 

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento também conhecido como segurança social, o coronel Álvaro de Campos haveria de recordar o dia em que o pai o levou a ver o café Gelo.

“não me apetece nada, paizinho”

“come um pastel de nata”

“não tenho apetite, paizinho”

“come, alimenta-te, com esse corpo franzino não chegas a lado nenhum”

“Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada”

“Cala-te, senão ainda levas um tabefe com as costas da mão”

daqueles que doem, que deixam os nós dos dedos vincados na face do receptor, o meio é a mensagem, lá dizia o outro que entretanto também já não está entre nós, se calhar também tinha fastio e morreu de fome, coitadinho. Álvaro pensa para com os seus botões,

“ninguém precisa de ser nada, basta estar”.

Quieto. Manso. No fundo, desde que nos cubram com um banho de bronze e nos ponham no lugar de alguém que ninguém sabe quem é, tudo passa. Hoje faço as vezes de um homem que em tempos mereceu uma estátua. Muitos anos depois ninguém sabe quem é o duque da terceira, mesmo que se esteja diante de um pelotão de fuzilamento. Ou à porta da tal segurança social, a mendigar um apoio, uma ajuda, a puxar o braço a alguém que tenha a bondade ou a possibilidade de nos auxiliar, por favor. Quieto, manso, no lugar de outro. Álvaro pensa:

“até hoje ninguém deu pela troca, pelo embuste, pela substituição atrevida e a roçar o transcendental”.

Digo: Não há mais transcendência, mais metafísica no mundo senão a dos chocolates. E a dos cartões lisboa viva. E a da gente apressada consigo mesma. E a de um supermercado encaixado na estação do comboio, um daqueles que se anunciam como o sítio do costume, daqueles que não tremem quando o iva sobe, daqueles que fazem as vezes do estado social, sem cartões, sem preocupações. Avista-se daqui, o sítio do costume. E fios de eléctrico que quase não bulem, a não ser que venha uma rajada de vento que levante as sombras e o lixo desta zona. Por entre as sombras e o lixo, como alguém trauteou aqui há atrasado. Aqui há atrasado, como se diz no norte, crente e vernacular. Se bem que o vernáculo não é propriedade de ninguém, ouviste Álvaro. Silêncio. Nem sequer a Sofisticação. Silêncio.

Muitos anos depois, entre o brega e o chique, entre o esgoto e o trendy, alguém há-de lembrar-se desta zona com saudade. E o duque da terceira que até... Quem? Aqui à frente o rio armado em mar, caudaloso, arrogante; lá para trás e em subindo, magotes de gente com a pele escaldada e as máquinas em punho. E restaurantes e enxames de copos de plástico a forrarem a calçada. E cerveja entornada, mel das gargantas que num estalar de dedos cheira a azedo, a noite processada e embalada e esquecida como um chouriço de marca branca. Esta semana, uma pechincha no sitio tal e tal. Nesta terra temos muito jeito para enchê-los, aos chouriços. São servidos?

“Não há mais metafísica senão a da Sicasal,”

carne indiferenciada e posta na montra à mercê dos gulosos da dita. À mercê dos carentes na alma, dos desapossados do amor que não aguentam a privação nem os apetites. Carne posta na rua com os temperos embotados pelo vício. Aqui à volta há muito por onde escolher, carne de aluguer, copos, gente travestida de cultura para parecer bem, para dar bom nome à praça e arredores. Duque da terceira, rua nova do carvalho, porta assim e assado. Gente em cima de palcos, a viver a vida dos outros.

Muitos anos depois diante do pelotão de fuzilamento, diante de vários pares de olhos que o escrutinam enquanto lê uma folha de papel, o coronel plagiador prepara-se para fechar o número e fugir a sete pés. Para ir ver o gelo, mas a boiar em copos. Com a vossa licença.

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por Pedro Vieira às 11:10


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